Vício em apostas provoca explosão de afastamentos do trabalho e acende alerta no INSS

Vício em apostas provoca explosão de afastamentos do trabalho e acende alerta no INSS

02 de Novembro de 2026

Por Martha Imenes

A escalada dos casos de dependência em apostas esportivas e jogos de azar tem refletido diretamente no mercado de trabalho brasileiro. Levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostra que os afastamentos por ludopatia, transtorno caracterizado pelo vício em jogos e apostas, cresceram 438% entre 2023 e 2025. Dados da Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho (SEET) apontam que o número de segurados que receberam benefício por incapacidade temporária do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) passou de 67 para 361 no período analisado.

O setor de serviços concentra a maior parte dos afastamentos, respondendo por 54% dos casos. Em seguida aparecem a indústria, com 23%, e o comércio, com 20%. As demais atividades econômicas representam 2,8% das ocorrências. O levantamento também revela que os homens correspondem a 71% dos afastamentos relacionados ao transtorno, com maior incidência entre trabalhadores de 30 a 39 anos.

Especialistas alertam para os impactos da dependência em apostas na saúde mental. Segundo o médico psiquiatra Bruno Vettore, do Rio de Janeiro, é possível identificar o vício por meio de sinais claros. “O principal sinal é a perda de controle: a pessoa tenta parar e não consegue, continua apostando apesar dos prejuízos e frequentemente tenta recuperar o dinheiro perdido com novas apostas”, explica. Endividamento, mentiras, conflitos familiares e prejuízos profissionais também estão entre os principais alertas.

Sobre a possibilidade de recuperação, o especialista afirma que o primeiro passo é reconhecer e aceitar o problema. “É fundamental bloquear o acesso às plataformas e aos meios de pagamento. Nesse momento, o apoio da família é muito importante. Quanto antes a pessoa buscar ajuda, menores tendem a ser as consequências”, destaca.

Questionado sobre o tratamento, Bruno Vettore ressalta que a abordagem envolve acompanhamento multiprofissional. De acordo com o psiquiatra, a terapia cognitivo-comportamental apresenta evidências de eficácia, enquanto o psiquiatra avalia a gravidade do quadro e a existência de comorbidades, como depressão, ansiedade e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Em determinadas situações, medicamentos também podem ser indicados.

O médico enfatiza ainda que a recuperação é possível. “O tratamento busca interromper as apostas, prevenir recaídas e reparar os prejuízos emocionais, financeiros e familiares. É possível retomar uma vida estável, especialmente quando a intervenção acontece de forma precoce”, afirma.

O aumento dos casos ocorre em meio ao debate nacional sobre a regulamentação das apostas eletrônicas. As chamadas “bets” estão proibidas no país desde a publicação da Medida Provisória nº 1.394, editada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de setembro. A medida entrou em vigor em 6 de outubro e ainda depende de análise do Congresso Nacional, que tem prazo de até 120 dias para decidir sobre sua conversão em lei.

Diante da alta nos afastamentos, os números reforçam a preocupação das autoridades com os impactos da dependência em jogos de azar na saúde dos trabalhadores e nos gastos previdenciários. Além disso, evidenciam a necessidade de ampliar ações de prevenção, tratamento e conscientização sobre os riscos associados ao vício em apostas.

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