Terras raras e minerais críticos: entenda o que sāo e porque ganharam destaque

Terras raras e minerais críticos: entenda o que sāo e porque ganharam destaque

29 de Setembro de 2026

Por Martha Imenes

Quem acompanha telejornais e debates políticos provavelmente já ouviu falar em terras raras e minerais críticos. Mas o que são esses recursos? Para explicar melhor é preciso voltar em julho do ano passado quando o governo estadunidense manifestou interesse em acessar minerais estratégicos brasileiros. A intençāo reacendeu o debate sobre o papel do Brasil na nova corrida global por recursos essenciais à tecnologia, à transição energética e à indústria de defesa. O episódio remete a um precedente histórico: nas décadas de 1950 e 1960, os norte-americanos importaram grandes volumes de areia monazítica brasileira, rica em tório, material radioativo aplicado na indústria nuclear, no contexto da corrida armamentista contra a então União Soviética. 
 
Hoje, o foco está nas chamadas terras raras, grupo de 17 elementos químicos (veja abaixo) fundamentais para a produção de veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, equipamentos eletrônicos e sistemas militares. Embora relativamente abundantes na natureza, sua extração e processamento são complexos e concentrados em poucos países.

O Brasil ocupa a segunda posição em um ranking de terras raras com reservas relevantes de lítio, grafite, níquel e cobalto, o país tem a segunda maior reserva estimada de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas. A China lidera o ranking, com 44 milhões de toneladas, seguida pela Índia, com 6,9 milhões. Os Estados Unidos aparecem na sétima colocação, com 1,9 milhão de toneladas, o que ajuda a explicar o interesse do presidente norte-americano Donald Trump pelos recursos minerais brasileiros.

Embora tenha destaque, graças ao montante de suas reservas, o Brasil ainda tem baixa produção em terras raras. A participação do país no setor é de apenas 1%. A única mina em operação comercial no segmento de terras raras é a Serra Verde, em Minaçu, Goiás, cujas atividades começaram em 2024, com foco em terras raras pesadas. Grande parte dos demais projetos encontra-se em fase de pesquisa ou de licenciamento. Porém, nem todos os pedidos serão convertidos em exploração.

“O Brasil possui um enorme potencial de crescimento na energia eólica, especialmente nas regiões Nordeste e Sul. Turbinas eólicas modernas usam ímãs permanentes de terras raras em seus geradores para aumentar a eficiência e reduzir custos de manutenção. À medida que o país expande sua matriz energética renovável, a demanda interna por ímãs de alto desempenho deve crescer exponencialmente, reforçando a necessidade de domínio da produção desses materiais”, diz Ysrael Vera, pesquisador do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM/MCTI).

Confira quais sāo os elementos de terras raras

As terras raras são formadas por 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos, mais escândio e ítrio, que possuem propriedades químicas semelhantes e geralmente aparecem associados aos mesmos depósitos minerais. 

  1. Escândio (Sc)
  2. Ítrio (Y)
  3. Lantânio (La)
  4. Cério (Ce)
  5. Praseodímio (Pr)
  6. Neodímio (Nd)
  7. Promécio (Pm)
  8. Samário (Sm)
  9. Európio (Eu)
  10. Gadolínio (Gd)
  11. Térbio (Tb)
  12. Disprósio (Dy)
  13. Hólmio (Ho)
  14. Érbio (Er)
  15. Túlio (Tm)
  16. Itérbio (Yb)
  17. Lutécio (Lu) 
Os mais importantes para as tecnologias atuais

Embora os 17 integrem o grupo, alguns têm papel especialmente estratégico:

  • Neodímio (Nd): fabricação de ímãs permanentes usados em carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e sistemas de defesa. 
  • Praseodímio (Pr): utilizado em ligas metálicas e ímãs de alto desempenho. 
  • Disprósio (Dy): aumenta a resistência dos ímãs a altas temperaturas, sendo essencial para veículos elétricos e aplicações militares. 
  • Térbio (Tb): melhora o desempenho de ímãs permanentes e é usado em sistemas eletrônicos avançados.
  • Samário (Sm): empregado em ímãs de alta resistência para usos aeroespaciais e militares.
  • Európio (Eu), Ítrio (Y) e Gadolínio (Gd): fundamentais em telas, LEDs, lasers, sensores e equipamentos médicos.

Presente no cotidiano da populaçāo

Embora pouco conhecidos pelo grande público, esses minerais de terras raras estão presentes no cotidiano de bilhões de pessoas. São componentes fundamentais de tecnologias que vão de celulares e computadores a veículos elétricos, sistemas de comunicação, equipamentos médicos e fontes de energia renovável. Entre os principais minerais críticos estão lítio, cobre, grafite, cobalto, níquel e manganês.

Um smartphone, por exemplo, depende de lítio, grafite, níquel e cobalto para o funcionamento da bateria. Já elementos classificados como terras raras, como o neodímio, são utilizados em componentes responsáveis pelo som e pela vibração do aparelho. Essa relação mostra como minerais críticos e terras raras estão diretamente conectados.

"São materiais que sustentam toda a infraestrutura tecnológica moderna. Sem eles, não existiria a revolução digital como conhecemos hoje", explica o economista e especialista em mineração e comércio internacional, Paulo Guedes Filho.

Segundo o geólogo e consultor mineral Carlos Eduardo Lopes, a relevância desses materiais para a economia atual pode ser comparada ao papel desempenhado pelo petróleo no século passado.

"O petróleo foi o motor da economia industrial do século XX. Os minerais críticos tendem a desempenhar função semelhante na economia digital e de baixo carbono que está sendo construída neste século", afirma.

 
Maiores reservas de terras raras do mundo 

Ranking País Reservas estimadas
1º China 44 milhões de toneladas
2º Brasil 21 milhões de toneladas
3º Índia 6,9 milhões de toneladas
4º Austrália 5,7 milhões de toneladas
5º Rússia 3,8 milhões de toneladas
6º Vietnã 3,5 milhões de toneladas
7º Estados Unidos 1,9 milhão de toneladas
8º Groenlândia 1,5 milhão de toneladas
9º Tanzânia 890 mil toneladas
10º África do Sul 860 mil toneladas

Geopolítica mundial
 
"O país que controla apenas a extração ganha menos do que aquele que domina a transformação industrial desses recursos. O grande desafio para países como o Brasil é avançar na agregação de valor", avalia a professora de geopolítica energética Maria Helena Andrade.

Esse contexto ajuda a entender por que o tema se tornou frequente nos discursos de líderes mundiais. As grandes economias buscam reduzir a dependência de fornecedores externos e garantir acesso a matérias-primas consideradas essenciais para a competitividade industrial.

A política econômica defendida por Donald Trump, por exemplo, atribui grande importância à reindustrialização dos Estados Unidos. Para ampliar a produção de baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa, o país precisa assegurar o fornecimento desses insumos estratégicos.

Nesse cenário, o Brasil aparece como um dos países mais promissores. Além de liderar a produção mundial de nióbio, possui reservas expressivas de terras raras, lítio, grafite, níquel e manganês, o que o coloca em posição privilegiada diante do crescimento da demanda global.

Para o cientista político Ricardo Mendes, especialista em relações internacionais, a importância geopolítica desses recursos tende a aumentar nos próximos anos.

"Estamos diante de uma mudança estrutural da economia mundial. Assim como as regiões produtoras de petróleo ganharam relevância estratégica no século passado, os países com grandes reservas de minerais críticos devem ocupar papel cada vez mais importante no cenário internacional", conclui.

Com informaçōes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

 

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