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Martha Imenes
Um ano e quatro meses depois de deflagrada a Operraçāo Sem Desconto, que apontou supostos descontos fraudulentos de mensalidades associativas em aposentadorias e pensōes pagas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a autarquia cria norma que permite concessāo de crédito consignado sem o uso de biometria facial nas bases do governo federal. Agora, aposentados e pensionistas vāo poder contratar empréstimos consignados apenas com autorização pelo aplicativo Meu INSS.
A mudança já está em vigor, após a publicação da Instrução Normativa (IN) 213 do INSS, no último dia 19. Em meio ao alto endividamento de idosos, a nova regra altera procedimentos para contratação e portabilidade do consignado.
Para se ter uma ideia, levantamento do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) aponta que o endividamento de idosos e aposentados do INSS é impulsionado pelo assédio agressivo de bancos, crédito consignado predatório e falta de educação financeira. "Isso compromete grande parte da renda básica, ameaçando o sustento de famílias que dependem desses benefícios"alerta Ione Amorim, presidente do Idec.
O endividamento de idosos nāo é limitado a eles próprios, o impacto pode atingir famílias inteiras: pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offer Wise Pesquisas, mostra que 91% dos brasileiros com mais de 60 anos contribuem financeiramente para o sustento da casa, sendo que 52% são os principais responsáveis. Especialistas temem o alto endividamento de aposentados e pensionistas.
2026 já tem mais empréstimos de
janeiro a maio que todo ano de 2024
De acordo com o Portal da Transparência Previdenciária de maio o número de contratos de empréstimo consignado de janeiro a maio deste ano (47,2 bilhōes) já é superior a todo acumulado de 2024 e 2025, com 41 bilhōes e 45,8 bilhōes, respectivamente. dados de maio apontam que o INSS paga 35.371.625 benefícios previdenciários e 6.645.544 benefícios assistenciais e de legislaçāo especial. Importante destacar que apenas aposentadorias, pens9oes e Benefício de Prestaçāo Continuada (BPC) podem requerer empréstimos consignados.
Controvérsia: biometria exigida para
mensalidades, mas nāo para consignado
Somente para lembrar: em março de 2024, uma Insrtruçāo Normativa (162) exigia que a Dataprev criasse biometria para adesāo a descontos no contracheque. A ferramenta somente foi entregue ao INSS em pleno funcionamento em fevereiro de 2025. No curso do processo, a falta da biometria foi apontada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da Uniāo (CGU) como "favorecimento a fraude".
"As fraudes não acabam nunca. Ainda que haja mecanismos de segurança, os fraudadores sempre conseguem uma maneira de burlar o sistema. A mudança trazida com a IN que retira a biometria reabre e facilita a fraude nos consignados", adverte a advogada Adriane Bramante, do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP).
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Investigaçāo foi anunciada na
CPMI nāo saiu do campo das ideias
Nāo é de hoje que os créditos consignados de instituiçōes financeiras sāo questionados. Em setembro de 2025, os senadores e deputados da CPMI do INSS decidiram investigar possíveis consignados feitos sem autorização de aposentados e pensionistas. Segundo a representante da Controladoria-Geral da União, Eliane Viegas, esse tipo de empréstimo movimentou R$ 70 bilhões. A defensora pública, Patrícia Bettin, já recebeu denúncias de aposentados e pensionistas com mais de 10 consignados no benefício.
Em novembro do ano passado, durante sessāo da CPMI, o deputado Evair de Melo (PP-ES) chegou a dar como exemplo casos em que valores entre R$ 500 e R$ 1000 eram depositados sem consentimento na conta da aposentados. Eles acabavam sacando o dinheiro sem saber a origem e deflagravam uma dívida que começava a ser rolada sem seu conhecimento e após anos se tornava praticamente impagável.
Segundo integrantes da comissão naquela época, os consignados movimentaram quantias bilionárias. Há indícios de concessões fraudulentas, cobranças indevidas e intermediação por associações e sindicatos que, em muitos casos, atuavam como porta de entrada para o golpe.
Dados levantados pela comissão indicam que mais de 1,6 milhão de aposentados já sofreram descontos indevidos de consignados no contracheque. Em muitos casos, foram observadas abertura automática de contas, adiantamentos compulsórios e contratos firmados de forma irregular. A CPMI informou que iria apurar se houve práticas abusivas, como o assédio de aposentados, concessão de crédito sem consentimento ou a renovação fraudulenta (refinanciamento). A investigaçāo alardeada na época, no entanto, nāo foi realizada.
Hipervulnerabilidade
financeira de idosos
Especialistas explicam que o endividamento de idosos no Brasil tem se consolidado como um problema social de grandes proporções, marcado pela hipervulnerabilidade financeira, pela oferta agressiva de crédito consignado e pela insuficiência dos benefícios previdenciários. De acordo com eles, essa combinação compromete não apenas o sustento básico, mas também a saúde mental da população idosa, que, apesar das dificuldades, conta com instrumentos legais específicos para renegociar dívidas e proteger sua renda.
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