Foto: José Cruz/Agência Brasil
01 de Outubro de 2026
Por Martha Imenes
O advogado-geral da União, Jorge Messias, criticou as declarações do candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), que atribuiu a integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) participação na disseminação da falsa informação de que ele apoiaria a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Em publicação nas redes sociais, Messias manifestou solidariedade à entidade e destacou sua importância para a comunidade católica e para a democracia brasileira.
Ao defender a CNBB, Messias ressaltou que a Constituição brasileira estabelece o Estado laico, princípio que garante a liberdade religiosa e a convivência respeitosa entre diferentes crenças. Segundo ele, a atuação da entidade junto aos fiéis católicos tem relevância pastoral e social, contribuindo para o fortalecimento dos valores democráticos no país.
"Movido pela convicção de que a base do Estado laico, adotada por nossa Constituição, pressupõe a convivência respeitosa de todas as crenças religiosas, manifesto meu reconhecimento da elevada missão desempenhada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) junto à comunidade católica, em termos pastorais, assim como seu papel decisivo em favor da construção de uma sociedade democrática em nosso país", escreveu o advogado-geral em seu perfil no Instagram.
Na publicaçāo, o ministro cita a laicidade do Estado e a liberdade religiosa de todos: "Defendo um Estado que assegure a liberdade religiosa de todos, sem legislar sobre a fé de ninguém, sem impor crenças e sem impedir que cada pessoa viva e proclame livremente suas convicçōes".
Por fim, o ministro deixa uma passagem bíblica que trata justamente do amor de Deus ("Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coraçāo" - Mateus 22:37) e finaliza: 'Trata-se de uma escolha livre, nāo de coerçāo - uma liberdade que pertence a todos".
O estopim
A controvérsia teve origem após uma entrevista concedida por Flávio Bolsonaro em Goiânia, no domingo (27). O candidato afirmou que a maior fake news da campanha foi a alegação de que pretendia retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil. Segundo ele, a narrativa teria sido impulsionada pelo PT com o auxílio de pessoas ligadas à CNBB.
A informação falsa ganhou ampla repercussão nas redes sociais, com quase 1 milhão de publicações em menos de três dias, tornando-se um dos maiores episódios políticos digitais da campanha de 2026. A equipe de Flávio Bolsonaro atribuiu o início da circulação da notícia a uma postagem do influenciador Jeferson de Oliveira Monteiro, criador do perfil “Dilma Bolada”.
Vale lembrar que o projeto que propunha retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de "Padroeira do Brasil" foi apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victório Galli (PMDB-MT). Anos depois, Galli integrou o governo de Jair Bolsonaro como assessor especial da Presidência da República. A proposta foi arquivada pela Câmara em 2008.
CNBB se manifesta
A CNBB divulgou nota oficial negando qualquer envolvimento na produção ou disseminação de conteúdos falsos relacionados ao processo eleitoral. A entidade afirmou que não integra estruturas partidárias nem apoia candidaturas, ressaltando que suas manifestações públicas são guiadas por princípios como dignidade humana, democracia, liberdade de consciência e bem comum.
A origem da polêmica remonta a uma reportagem exibida pela GloboNews, que mencionou uma possível reação da Igreja Católica a uma suposta mobilização de grupos evangélicos em torno de um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Horas depois, a emissora corrigiu a informação e esclareceu que a proposta havia sido apresentada na Câmara dos Deputados em 2007 e arquivada em 2008, sem qualquer relação com Flávio Bolsonaro.
Na sexta-feira (25), o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a remoção de 1.125 publicações que vinculavam o candidato ao projeto. A decisão considerou “notoriamente inverídica” a informação de que Flávio Bolsonaro ou seus familiares teriam proposto, apoiado ou articulado a retirada do título de padroeira. Entretanto, no domingo (27), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), revogou a medida, entendendo que as publicações analisadas não apresentavam grau suficiente de ilicitude para justificar restrições tão amplas à liberdade de expressão e de religião.
Brasil: maioria católica, mas com diversidade religiosa
A discussão ocorre em um contexto de grande pluralidade religiosa no país. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, os católicos representam cerca de 100 milhões de brasileiros, o equivalente a 56,7% da população, mantendo-se como o maior grupo religioso do país. Já os praticantes da Umbanda e do Candomblé somam aproximadamente 1,8 milhão de pessoas, correspondendo a 1% da população brasileira.
Embora os católicos formem a maioria, o Brasil abriga uma ampla diversidade de crenças, incluindo evangélicos, espíritas, religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, budistas e pessoas sem religião. Nesse cenário, especialistas apontam que o Estado laico é fundamental para assegurar que nenhuma religião receba tratamento privilegiado pelo poder público e que todos os cidadãos possam exercer livremente sua fé ou optar por não seguir nenhuma crença.