Minerais críticos já empregam 129 mil pessoas no Brasil enquanto disputa global por terras raras avança sobre o país

Minerais críticos já empregam 129 mil pessoas no Brasil enquanto disputa global por terras raras avança sobre o país

Foto: Teia dos Povos

20 de Outubro de 2026

Por Martha Imenes

Em meio à corrida mundial por minerais estratégicos para a transição energética e a indústria de defesa, o Brasil vê crescer o interesse de empresas estrangeiras por suas reservas de terras raras, lítio, nióbio e outros recursos considerados essenciais para o futuro tecnológico. Um dos exemplos está no sul da Bahia, onde a mineradora norte-americana Energy Fuels controla áreas para exploração de terras raras e integra uma cadeia de fornecimento ligada indiretamente à gestora 1789 Capital, da qual Donald Trump Jr. é sócio.

Os números mostram por que essas reservas estão no centro da disputa geopolítica. Dados do novo Portal de Minerais Críticos e Estratégicos, lançado pela Agência Nacional de Mineração (ANM), revelam que as atividades ligadas aos chamados minerais críticos e estratégicos empregam atualmente 129.423 trabalhadores no Brasil, o equivalente a 57% dos 226.634 empregos da indústria extrativa mineral. Em comparação com 2023, houve crescimento de 8,6% no setor.

Segundo a ANM, o Brasil possui atualmente 1.012 áreas em produção de minerais críticos e estratégicos. Em 2025, a atividade movimentou R$ 250,4 bilhões.

O levantamento reúne informações sobre 21 substâncias consideradas estratégicas para a economia brasileira e para a transição energética global, entre elas ferro, cobre, ouro, lítio, nióbio, titânio e terras raras, utilizados na fabricação de baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, equipamentos eletrônicos e tecnologias militares.

Minas Gerais concentra o maior número de empregos, com 62.631 postos, seguido pelo Pará, com 27.047, e pela Bahia, com 9.147 vagas. O minério de ferro lidera a geração de empregos, com 70.027 trabalhadores, seguido pelos metais preciosos, responsáveis por 21.313 postos.

Os municípios com maior número de trabalhadores no setor são Parauapebas (PA), com 8.234 empregos, Nova Lima (MG), com 8.218, e Congonhas (MG), com 7.114 postos de trabalho.

Bahia entra na mira dos Estados Unidos

O interesse norte-americano pelos minerais brasileiros pode ser observado no município de Prado, no extremo sul da Bahia. A Energy Fuels, uma das principais produtoras de urânio e terras raras dos Estados Unidos, adquiriu 17 concessões minerais entre Prado e Caravelas, abrangendo cerca de 15 mil hectares destinados à exploração de monazita, mineral que contém elementos de terras raras utilizados em veículos elétricos, eletrônicos, turbinas e equipamentos militares. A empresa informou que pretende utilizar a matéria-prima extraída no Brasil para abastecer suas unidades de processamento nos Estados Unidos.

Segundo a companhia, o projeto baiano poderá produzir entre 3 mil e 10 mil toneladas anuais de concentrado de monazita, embora a exploração comercial ainda dependa de licenciamento ambiental. 

A conexão política surge de forma indireta. A Energy Fuels mantém parceria com a fabricante norte-americana de ímãs para terras raras Vulcan Elements. Entre os investidores da Vulcan está a gestora 1789 Capital, que tem Donald Trump Jr. como sócio. A parceria faz parte de uma estratégia para fortalecer uma cadeia de suprimentos de terras raras nos Estados Unidos e reduzir a dependência americana da China.

Debate sobre soberania nacional ganha força

O avanço dos investimentos estrangeiros em minerais críticos tem alimentado um debate sobre soberania nacional e controle de recursos estratégicos.

Especialistas avaliam que o principal risco não está simplesmente na presença de capital estrangeiro, mas na possibilidade de o Brasil continuar ocupando o papel de exportador de matéria-prima, enquanto as etapas mais lucrativas da cadeia permanecem no exterior.

No caso das terras raras, os minérios extraídos em território brasileiro podem ser transformados em componentes de alto valor agregado para os setores automotivo, eletrônico, aeroespacial e militar em outros países. O resultado é que o Brasil gera empregos e receita na etapa de extração, mas perde espaço na industrialização, na inovação tecnológica e na geração de produtos de maior valor.

O próprio projeto da Energy Fuels é apontado como exemplo dessa dinâmica, já que a estratégia da empresa prevê o envio da monazita baiana para processamento nos Estados Unidos, fortalecendo a indústria norte-americana de terras raras.

A preocupação vai além da economia. Atualmente, minerais como lítio, terras raras e nióbio são considerados ativos estratégicos para a segurança energética, a produção de semicondutores, a indústria militar e a autonomia tecnológica das grandes potências.

Nesse contexto, cresce o receio de que reservas brasileiras passem a atender prioritariamente interesses industriais e geopolíticos externos, enquanto o país continua dependente da exportação de commodities minerais.


Corrida pelas terras raras reacende disputa
em Cumuruxatiba e preocupa comunidades 

A exploração de minerais críticos também levanta preocupações ambientais. No extremo sul da Bahia, organizações acompanham os projetos da Energy Fuels devido à proximidade das áreas minerárias com ecossistemas sensíveis, comunidades tradicionais e áreas protegidas. A região inclui áreas próximas ao complexo de Abrolhos, considerado um dos mais importantes ambientes marinhos do Atlântico Sul.

No distrito de Cumuruxatiba, em Prado, por exemplo, o avanço dos projetos levanta preocupações relacionadas a impactos ambientais, conflitos fundiários e mudanças no modo de vida local, que conta com comunidades indígenas, quilombolas e populações tradicionais. 

A exploração de areias monazíticas em Cumuruxatiba remonta ao fim do século XIX. Entre a Ponta do Corumbau e a foz do Rio Jucuruçu surgiram algumas das primeiras iniciativas de extração desse tipo de minério no Brasil. Em maio passado, a Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei 2.780/2024, que cria uma política nacional para exploração e comercialização de minerais críticos e estratégicos, o que colocou a regiāo sob os holofotes.

Lideranças indígenas e movimentos sociais afirmam que a expansão da mineração pode trazer consequências para áreas ambientalmente sensíveis e para territórios tradicionais.

Entre as preocupações estão o desmatamento, a contaminação de rios e lençóis freáticos, a degradação do solo e o aumento de conflitos fundiários em regiões próximas a aldeias Pataxó e outras comunidades tradicionais.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) criticou recentemente propostas que ampliam incentivos à mineração sem garantir mecanismos efetivos de participação das populações afetadas.

Para essas organizações, o debate não deve se limitar aos ganhos econômicos prometidos pelos empreendimentos. A preocupação é que decisões sobre exploração mineral avancem sem que os moradores dos territórios sejam ouvidos adequadamente.

 

 

Compartilhar