Crise no Clā Bolsonaro mostra a força política de Michelle

Crise no Clā Bolsonaro mostra a força política de Michelle

Michelle Bolsonaro deixou a presidẽncia do PL Mulher Nacional e presidente do partido faz graça com "você sabe como mulher é, né?" ao ser perguntado sobre futuro da sigla

A saída de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher trouxe à tona um projeto de poder que se canibaliza internamente e o perfil misógino de aliados e membros do PL. Sua decisão, comunicada ao presidente do partido Valdemar Costa Neto, em Brasília, materializa a crise que corrói a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Nesse bafafá uma coisa chamou atençāo: os ataques à Michelle uniram mulheres de direita e de esquerda em defesa da ex-primeira-dama.

A justificativa oficial, de que se dedicará aos cuidados do marido em prisão domiciliar humanitária, funciona como um frágil biombo para ocultar a verdadeira motivação: o rompimento com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do partido ao Planalto. Em vídeo recente, a própria Michelle denunciou ter sido "humilhada"e "desrespeitada" por Flávio em uma ligação telefônica sobre a estratégia eleitoral no Ceará.

A crise escalou com os ataques do comunicador bolsonarista Paulo Figueiredo, que, de seu refúgio em Miami, classificou Michelle como "feminista" (como se isso fosse demérito, o que nāo é), "praga" e afirmou que "mulheres votam mal pra caralho" (sic). Suas falas foram transmitidas em uma live. Vale lembrar que o feminismo nāo é o mesmo que machismo, que tenta subjugar as mulheres. O feminismo luta por igualdade de direitos e de salários, além de cobrar a participaçāo da mulher nos diversos segmentos da sociedade. 

O senador se manifestou seis dias depois do vídeo, o que gerou reaçāo de Figueiredo: “Flávio dizer que se sentiu ofendido já é vitimismo, foi um exagero. Odeio gente que se vitimiza”.

Poucos dias depois, o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto justificou a decisão de extinguir a presidência nacional do PL Mulher após a saída de Michelle Bolsonaro. Ao defender a medida, afirmou que nenhuma dirigente do partido estaria “à altura” da ex-primeira-dama. Questionado por jornalistas sobre a possibilidade de outra mulher assumir a presidência nacional do PL Mulher, respondeu: “Você sabe mulher como é, né? Arruma enguiço com 20. Nós queremos extinguir a presidência nacional.”

A declaração de Valdemar se soma a uma sequência de episódios que, em menos de duas semanas, desmascarou a misoginia de aliados de Flávio Bolsonaro.

Em Brasília, circula que o que incomoda os filhos de Bolsonaro é justamente o fato de uma mulher ter opiniāo contpor conta da sua atuaçāo. Na tentativa de apagamento da personalidade feminina, "os meninos" chamam a ex-primeira-dama pelo sobrenome de solteira, Firmo.

Na capital federal, Michelle é considerada uma líder nata e carismática. "Por que nāo utilizar somente o nome Michelle em propagandas, vídeos e tudo mais? Ela já provou a que veio, nāo precisa se apoderar do sobrenome", diz uma fonte próxima à Esplanada.

Fogo-amigo

O deputado federal cassado e foragido da Justiça, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), reagiu publicamente às críticas feitas pelo também deputado Zé Trovão (PL-SC) ao ex-presidente Jair Bolsonaro. No mesmo dia, o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo direcionou ataques à própria equipe de comunicação de Flávio após a audiência realizada nos Estados Unidos sobre a proposta de tarifas contra produtos brasileiros.

A tensão no segundo episódio começou depois que Zé Trovão afirmou que Jair Bolsonaro teria adotado uma postura de “covardia” ao não enfrentar determinadas decisões judiciais. A declaração provocou reação imediata de Eduardo Bolsonaro, que utilizou as redes sociais para defender o pai e atacar o correligionário.

Diante da repercussão negativa, Zé Trovão voltou atrás, alegando que sua fala foi retirada de contexto. O episódio expôs divergências públicas dentro do próprio PL em um momento de intensificação das articulações eleitorais.

Paralelamente, o outro foco de desgaste surgiu após a participação de Flávio Bolsonaro na audiência promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), em Washington, sobre a proposta de sobretaxas de 25% a produtos brasileiros. Depois da repercussão da agenda, Paulo Figueiredo fez críticas abertas à condução política e de comunicação da equipe do senador.
 
“A gente tenta sentar e deixar nego (sic) trabalhar e fazer o que tem que fazer. Mas, puta merda (sic), que campanha desgraçada! Nego não se ajuda”, escreveu Figueiredo, em publicação nas redes sociais direcionada aos responsáveis pela estratégia de Flávio. O influenciador incomoda-se com a pouca atenção que o episódio recebeu na mídia e atribui a falhas na assessoria de imprensa.

A crítica ocorre poucos dias após o próprio Figueiredo desistir de participar presencialmente da audiência, decisão tomada em meio a controvérsias envolvendo declarações anteriores do influenciador. Ainda assim, ele permaneceu acompanhando a agenda política nos Estados Unidos e passou a cobrar publicamente a condução da pré-campanha bolsonarista.

O desgaste enfrentado pelo próprio Figueiredo dentro do campo bolsonarista decorre de um vídeo publicado em seu canal no YouTube no fim de junho. O influenciador direcionou ataques à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, uma das principais lideranças do PL.

Juntos, os episódios ampliam a percepção de desorganização no entorno de Flávio Bolsonaro, justamente quando o grupo tenta construir uma narrativa de unidade para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de outubro. Além da disputa com o governo federal em torno das tarifas estadunidenses, a direita passa a lidar também com embates públicos entre aliados, críticas à coordenação da campanha, divergências sobre estratégia eleitoral e uma crescente disputa por protagonismo dentro do próprio campo bolsonarista.

Reaçāo da bancada feminina na Câmara

A Bancada Feminina da Câmara dos Deputados, liderada pela deputada Jack Rocha (PT-ES), protocolou uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o influenciador Paulo Figueiredo e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A mobilização ocorreu após ele afirmar que mulheres "votam mal", sugerindo ainda que mulheres casadas deveriam estar subordinadas aos maridos. 

O documento apresentado pelo grupo de parlamentares acusa os envolvidos de promoverem violência política de gênero e propaganda discriminatória, além de estimularem a erosão do sufrágio universal e a autonomia política das mulheres. O conteúdo também questionava o voto das eleitoras solteiras, o que gerou forte reação institucional. 

A coordenadora da bancada feminina na Câmara, Jack Rocha (PT-ES) protocolou, na Procuradoria-Geral da República (PGR), uma representação em que pede a apuração de falas e cartilhas que, na avaliação da parlamentar, atacam o voto universal e a participação das mulheres nas eleições.

No documento, a deputada pede a apuração de uma declaração do empresário Paulo Figueiredo em que o aliado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirma que mulheres "votam mal". O pré-candidato do PL ao Palácio do Planalto já disse repudiar a fala de Figueiredo, que rebateu: "Flávio dizer que se sentiu ofendido já é vitimismo, foi um exagero. Odeio gente que se vitimiza” e complementou com  “Flávio tem a posição dele, eu tenho a minha, ele está errado do ponto de vista material. Eu estou muito à direita do Flávio”. 

Notícia-crime

A iniciativa amplia a ofensiva contra as declarações de Paulo Figueiredo. Em 30 de junho, a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) apresentou uma notícia-crime à PGR, sustentando que as afirmações podem configurar violência política de gênero e discurso misógino.

Na ocasião, ela pediu a preservação das provas digitais e a análise de medidas cautelares para impedir novas publicações sobre o tema enquanto o caso é investigado.

Partido Missāo

A deputada petista pede também a análise de uma cartilha do Partido Missão – que tem Renan Santos como pré-candidato à Presidência – que, segundo a deputada, faz críticas ao voto universal, com a possibilidade de substituição pelo "voto familiar".

No documento, a deputada afirma que a fala de Paulo Figueiredo e a cartilha do Missão atacam diretamente o maior contingente do eleitorado brasileiro, já que as mulheres representam cerca de 52% da população apta a votar, o equivalente a mais de 81 milhões de eleitoras.

Para a representante da bancada das mulheres na Câmara, insinuar que o voto feminino é inferior ou subordinado à figura masculina gera um ambiente de "intimidação simbólica", "hostilidade" e "deslegitimação" da participação das mulheres nas eleições.

Conheça a bancada feminina da Câmara

Esquerda e Centro-Esquerda

  • Jack Rocha (PT-ES): Coordenadora da Bancada Feminina. 
  • Benedita da Silva (PT-RJ)
  • Gleisi Hoffmann (PT-PR)
  • Maria do Rosário (PT-RS)
  • Erika Hilton (PSOL-SP)
  • Talíria Petrone (PSOL-RJ)
  • Sâmia Bomfim (PSOL-SP)
  • Célia Xakriabá (PSOL-MG)
  • Jandira Feghali (PCdoB-RJ)
  • Alice Portugal (PCdoB-BA)
  • Tabata Amaral (PSB-SP)
  • Lídice da Mata (PSB-BA)

Direita e Centro-Direita

  • Bia Kicis (PL-DF)
  • Caroline de Toni (PL-SC)
  • Chris Tonietto (PL-RJ)
  • Coronel Fernanda (PL-MT)
  • Daniela Reinehr (PL-SC)
  • Rosângela Moro (União-SP)
  • Adriana Ventura (Novo-SP)
  • Any Ortiz (Cidadania-RS)
  • Soraya Santos (PL-RJ)
  • Simone Marquetto (MDB-SP)

 

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