Em março passado em um artigo de opiniāo para o jornal Correio da Manhā sobre o caso Master já alertava que a prática fraudulenta poderia atingir outras instituiçōes (Caixa de Pandora: o caso Master vai muito além da fragilidade do sistema financeiro). Entre tantas acusaçōes entre esquerda, direita e cento uma coisa é certa: independentemente de posicionamento político, os tentáculos do mau-feito são amplos e não fazem distição de poder, chegam em todos. Enquanto a delaçāo de Daniel Vorcaro (dono do Master) está na geladeira. Um alvo das investigaçōes relatou 'frio na espinha' ao bolar fraude no BRB.
Mensagens obtidas pela PF mostram que a Tirreno, empresa usada para fraudar R$ 12,2 bilhões em carteiras vendidas ao Banco de Brasília (BRB) foi criada dentro do Banco Master em abril de 2025 — não em dezembro de 2024, como dizem os documentos da firma.
A conclusão consta de relatório da Polícia Federal obtido no celular de André Felipe de Oliveira Seixas Maia, diretor da Tirreno, empresa à qual foram atribuídas as carteiras fraudulentas.
A primeira menção à empresa no celular de André é de 9 de abril de 2025, quatro meses depois da data que consta nos documentos. Nesse dia, sua secretária envia a ele um arquivo chamado "A Tirreno.docx", sem nenhum contexto ou explicação.
"Somos a Tirreno", diz o documento. "A Tirreno surgiu com a necessidade e objetivo de atuar no mercado de originação de crédito consignado. Para tanto, possuímos uma equipe multidisciplinar, com profissionais treinados e altamente capacitados para promover de forma ética e consciente as linhas de créditos."
A empresa foi criada após a área técnica do Banco Central solicitar informações sobre a venda de carteiras ao BRB, em 17 de março de 2025, como uma forma de justificar a suposta origem daqueles créditos. Antes disso, o Master havia informado ao BC que as carteiras tinham origem em associações de servidores da Bahia, sem dizer nada a respeito da Tirreno.
A própria ata da assembleia que formalizou a empresa, supostamente realizada em 2 de dezembro de 2024, só aparece nas mensagens de André em 17 de abril de 2025 — depois de a Tirreno já ter sido registrada na Junta Comercial de São Paulo, no dia 15 do mesmo mês.
A PF conclui que a empresa foi constituída em abril de 2025, e que seus documentos receberam data retroativa "com o aparente propósito de conferir lastro a transações previamente realizadas entre o BRB e o Banco Master".
Esquema pode chegar a outros estados
Esse inquérito policial pode atingir outros estados, de acordo com o escritório AFG&Taques, que move açāo judicial contra empresas que descontararam indevidamente consignado de pelo menos 20 mil servidores do Mato Grosso, uma petiçāo foi protocolada no último dia 18 pedindo acesso às investigaçōes da PF visando estabelecer um paralelo entre os casos.
O crédito consignado entrou no radar de órgãos públicos, principalmente da Polícia Federal, que está conduzindo investigações sobre fraudes em empréstimos consignados que envolvem desde golpes individuais até esquemas bilionários com ramificações em órgãos públicos e instituições financeiras. No Mato Grosso, 20 mil servidores públicos tiveram descontos em seus contracheques sem autorização.
O caso foi denunciado por entidades sindicais por meio do escritório de advocacia AFG&Taques, que acionou o Ministério Público Federal (MPF), o Tribunal de Contas do Estado (TCE) e o próprio governo estadual.
Conforme levantamento do escritório, os prejuízos podem chegar a bilhões de reais. Entre as operações suspeitas estão os créditos consignados operados pela empresa Capital Consig. Em Mato Grosso, assim que notificada, a Secretaria de Planejamento (Seplag) cancelou os descontos.
De acordo com o advogado que representa as entidades, mais três empresas operam com a Capital Consig. Também foi pedido o cancelamento dos descontos de Click Bank, Cartos e Bem Cartões, que são do mesmo grupo econômico.
"O MPF recebeu a denúncia e está investigando o caso que envolve fraude junto ao Banco Central, além disso, o grupo econômico pode estar com atuação semelhante em outros estados da Federação", adverte o escritório.
De acordo com o advogado Murilo Gonçalves, um dos representantes de servidores que assina a açāo, "a produção da prova ora requerida assume especial relevância diante das discussões já instauradas nestes autos acerca da eventual incidência do Tema 1.414/STJ".
"Isso porque os elementos investigativos produzidos pela Polícia Federal poderão reforçar justamente a singularidade estrutural do caso concreto submetido à apreciação da Justiça evidenciando que a presente demanda coletiva não se limita a mera discussão individual sobre contratos de cartão consignado, mas envolve contexto excepcional de possível fraude massificada, fragilidade sistêmica de consentimento e potenciais irregularidades estruturais investigadas por múltiplos órgãos estatais", pontua a petiçāo.
No documento protocolado, as entidades sindicais requerem:
a) o deferimento da produção de prova emprestada consistente no compartilhamento de elementos informativos e probatórios produzidos no âmbito do inquérito policial 2025.0078640-SR/PF/MT, em trâmite perante a Superintendência Regional da Polícia Federal em Mato Grosso;
b) seja expedido ofício ao Juízo Federal responsável pela supervisão do IPL nº 2025.0078640-SR/PF/MT, solicitando autorização para compartilhamento dos elementos informativos, documentos, relatórios, oitivas, dados financeiros, elementos de inteligência, quebras autorizadas judicialmente edemais provas pertinentes ao objeto desta ACP, observados os limites do sigilo legalmente estabelecido;
c) subsidiariamente, caso Vossa Excelência entenda necessário, seja oportunizado ao Juízo Federal supervisor do feito delimitar os elementos passíveis de compartilhamento, preservando-se eventual sigilo investigativo ainda imprescindível.
Denunciantes
Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso (Sintep-MT), Sindicato dos Profissionais da Área Instrumental do Governo (Sinpaig-MT), Sindicato dos Servidores da Carreira de Desenvolvimento Econômico e Social (Sindes-MT), Sindicato dos Profissionais do Meio Ambiente (Sintema), Sindicato dos Trabalhadores da Educação Superior (Sintesmat), Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol-MT) e a Federação Sindical dos Servidores Públicos do Estado (Fessp-MT).
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